domingo, 19 de maio de 2019

Fora Furão



Olha a Lu de carro do pomar. Ela estava saindo quando encontrou o Pen Duick e ficaram batendo um papo, eu acho. Na caçamba fechada tem três caixas com 45 quilos de frutas que ela ajudou a recolher do chão, caídas à sombra das copas de minhas árvores. Foi a primeira coleta de colegas atacadas por uma mariposa sacana, que fura a casca e coloca ali um ovo que se transforma em uma larva dentro dos gomos, nos enfraquece e caímos.

A mariposa é pequena, menos de um centímetro, mas faz um estrago danado. Aqui não muito, quase nada na verdade, por que eles estão sempre de olho e nos tratam logo.

Ela tem um nome pomposo, Gymnandrosoma aurantianum, mas o apelido mesmo é Bicho Furão.

Na maioria dos pomares os donos enchem as árvores de veneno, nos intoxicam, intoxicam quem aplica o veneno e quem come a fruta. Uma sacanagem em cadeia.

Mas aqui não é assim, eu sei. Sei que logo, já no amanhecer, talvez, nós vamos ser tratadas com carinho e respeito. Como quem toma um banho com lavandas, vamos receber nosso amigo Bacilus Turigienses, que como o nome diz, é um ser vivo chamado para a luta e que vai evitar que o Furão coloque seus ovos aqui.

Lá por quarta-feira vamos receber mais um banho de óleo de neem, feito com extrato de uma planta que não me faz mal algum, mas interfere no sistema reprodutivo da mariposa, evitando que ela tenha mais ovos para colocar em nós.

E assim sigo, amadurecendo feliz e bem tratada.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Tô chegando


Oi, tudo bem? Andei sumida daqui, né?

Fui ver agora e a última vez que escrevi neste espaço dedicado unicamente à minha vaidade foi em agosto de 2016. De lá prá cá já passei por dois ciclos completos. Tive a safra de 1017, que foi M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A, e a safra do ano passado, que foi assim, mais ou menos, né? Acho que ano passado não entrei no clima, sabe?

Mas este ano... ah, este ano promete.

Olha eu amadurecendo nesta foto feita ontem, terça-feira. Estou linda ou não estou? Ainda estou longe de ter todo o sabor que é minha maior qualidade. Mas, como podem ver, sou uma jovem bonita e me tornarei uma adulta mais bonita ainda.

Tem gente que coloca minhas colegas tangerinas nos mercados quando elas ainda não estão maduras. 

Muitas e muitas são descascadas até mais verdes que eu nesta foto. Mas comigo, não! Minha função nesta vida é dar a todos o máximo de prazer. Visual e gustativo. Por isto, só saio da árvore que me dá vida quando toda a minha casca estiver bem alaranjada, mais ainda que o lado direito desta colega em primeiro plano. E bem doce.

Por falar em doce, os que cuidam de mim apareceram com uma novidade este ano. Dia sim, dia não, um deles aparece por aqui, escolhe umas colegas e leva para casa. Soube que lá ele faz um monte de anotações. Nos pesa, nos mede, vê quanto tem de açúcar em gotas de nossos sucos e o quanto ainda estamos ácidas.

Adoro ser paparicada.

Tenho muita novidade para contar. Muita mesmo. Volto logo, tá?

Até breve.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Hoje o dia foi poda

Inicio da poda para a safra 2017 

Hoje, 25 de agosto, a lua entra em sua fase minguante. Quem tem céu limpo para olhar e ficar até mais tarde, verá apenas a metade do satélite natural da terra. Daqui uma semana, dia 1º de setembro, ela estará totalmente escondida pela sombra do planeta, para recomeçar a aparecer, como um fiapo unha cortada, na noite seguinte.

É um momento em que a lua exerce pouca força de atração sobre as coisas da terra. Dias e noites em que seiva das árvores tendem a descer para as raízes, com menor concentração nas folhas, flores e frutos. Os cortes cicatrizam mais rápido e, com pouca seiva, poucos insetos.

Todo ano, após a colheita, os pomares de citros passam por uma poda suave, nada de grandes desbastes, isto já aconteceu quando as árvores estavam com três anos. Naquele momento, os cortes foram para dar forma às copas e para deixá-las num formato que facilitará a vida de quem vai colher as frutas quando elas estiverem com a sua altura máxima, que deve chegar aos quatro metros.
As árvores recebem o carinho da Lu.
A poda que começou hoje e que deve se estender até a metade da semana que vem é suave, quase um carinho para as árvores que já estão repletas de botões de flores. A intenção é arejar a planta, permitir que o vento e o sol cumpram as suas missões de secar o interior das copas após noites de sereno e temporadas de chuvas. Isto diminui a criação e proliferação de fungos, parasitas e colônias de insetos que gostam do ambiente úmido e, caso não fujam do controle, danificam seriamente as árvores e comprometem a qualidade das frutas.
Se o meu olhar atravessa a copa da árvore, o sol e o vento também passam por aqui 

Começamos pelo pomar aqui ao lado da casa, o que tem as primeiras 400 árvores de clemenules, plantado em 2011. O pomar mais jovem, também com 400 árvores, deverá ser podado no começo da próxima semana e, na sequência, os 70 pés de limão siciliano, as 100 árvores de tangerina okitsu, as laranjas rubi e as pokan. Parte dos galhos e as folhas podadas serão incorporadas em adubos orgânicos e se tornarão matéria seca para cobertura de hortas.
Não vai para o lixo
Passada a fase da poda os pomares receberão os tratamentos fitoterápicos, as correções de solo e as adubações. Depois ainda virão os dois raleios, tudo para que as frutas que serão colhidas no próximo inverno estejam lindas, saborosas e saudáveis.

domingo, 5 de junho de 2016

Minha amiga tagets erecta


É pomposo o nome que os cientistas deram para esta flor linda, quase da minha cor, e que está espalhada entre as árvores do pomar onde estou plantada: tagets erecta.

Os homens comuns a chamam de cravo de defunto e outros menos populares. E tem um bom motivo para este nome fúnebre, que em muitos humanos pode até causar repulsa. Mas repulsa mesmo ela causa é em muitos e muitos bichinhos que gostam do meu sabor, do gostinho das folhas de minhas árvores e que não fazem nada bem para a minha saúde.

Dizem que o apelido de “cravo de defunto” tem origem no fato de ela ter sido muito usada nos velórios de homens e mulheres, para espantar as moscas que apareciam quando os corpos eram velados por muito tempo.

E como espanta. Não só as moscas, mas outros bichinhos também. Com elas aqui por perto, me sinto bem à vontade, pois desde que elas começaram a florir ao meu redor, praticamente desapareceram as moscas de fruta, os pulgões, as formigas, as colchonilhas e as larvas minadoras que atormentam minha vida.

Esta plantinha maravilhosa tem origem no México, mas está espalhada pelos quatro cantos do Brasil. No Rio Grande do Sul, por exemplo, ela ajudou a reavivar pomares de videiras que muitos consideravam perdidos pelo ataque de pragas nas raízes de plantas de idade avançada. Na internet é possível encontrar receitas de chás feitos com as flores e as folhas, que os autores das postagens dizem que combate os efeitos da dengue.

As flores que estão no pomar ao meu redor chegaram aqui bem pequeninas, trazidas da estufa de Pedras Rollantes, onde foram plantadas em ambiente protegido e com todo o cuidado. Eles chamam isto de agroecologia, algo um pouco além da agricultura orgânica.

Bom né?

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Poucas, mas boas



Já se passaram oito meses e meio desde que eu escrevi neste blog pela última vez. Foi na véspera da primavera do ano passado, quando mostrei um vídeo com a chuva sobre as árvores que me geram. Muita coisa aconteceu desde então, e confesso, não foram coisas boas não.

Naquele post eu já reclamava por ser o terceiro dia de chuva e que a quantidade de água, somente naqueles dias, era equivalente a tudo o deveria chover nesta região por um mês inteiro.

Pois a chuva continuou e nos trinta dias seguintes choveu 730 milímetros por metro quadrado, nada mais, nada menos, do que pouco mais de cinco vezes o que deveria ter chovido. E esta água toda provocou um estrago incalculável nos meus pomares e nos de muitas outras variedades de frutas, em todos os lugares em que choveu tanto assim.

Era primavera, época em que minhas árvores ficam garbosas de tanta flor, que muitas frutinhas começam a aparecer, minúsculas, ainda grudadas em pendúculos enormes. Momento em que preciso de água e sol. Água para irrigar e me fazer crescer e sol para secar a umidade que nos meus galhos, minhas folhas e permitir que aconteça a mágica da fotossíntese. E como todo remédio em excesso é veneno, a água em demasia naqueles meses molhados da primavera, permitiu que colônias de fungos se alojassem entre as pétalas de minhas flores, provocando a queda de muitas delas e o apodrecimento de tantas outras.

Nós, as poucas que sobramos, estamos saudáveis e deliciosas, como sempre, mas, de cada dez irmãs esperadas, perdi pelo menos oito. Os que cuidam de mim estão chateados, muito chateados mesmo, e eu os entendo. Também estou. Para eles é uma questão econômica, pois dizem que a quebra da safra é grande demais e não vão conseguir recuperar nem metade do que investiram para nos fazer bonitas e saborosas. Para mim é também uma questão de vaidade. É triste ver a árvore aqui ao lado sem nenhuma irmã em seus galhos, é lamentável não enxergar este pomar com aquele lindo colorido dos anos anteriores.

Mas tudo bem, bola prá frente.

Somos poucas, eu sei, mas somos boas, e estamos ansiosas para que comece logo a colheita. E desta vez será diferente, diferente e interessante. Como somos poucas, este ano não iremos para as gôndolas dos mercados de orgânicos, feiras e supermercados, coisa que adoro. Este ano serei colhida por quem vai me saborear. E eu amo isto. A festa começa a acontecer já neste fim de semana que se aproxima, na forma de Colhe e Paga.



O do ano passado foi bem legal e este ano promete ser melhor ainda. É que agora, com o Café no Sítio Pedras Rollantes rolando aqui do meu ladinho, todo final de semana terá Colhe e Paga.

Apareçam!

Os que ainda não me conhecem, convido para dar uma passeada por este blog. Eu me apresento nas primeiras postagens, as de maio, que podem ser vistas clicando diretamente aqui

sábado, 19 de setembro de 2015

Mas só chove, chove; chove, chove...




Kiko Zambianchi, Titãs ou Engenheiros do Hawaii? Ah, sei lá, mas sei é que eu acho bem legais os rock and roll desta turma dos anos de 1980.

Qualquer um deles seria uma boa trilha sonora para a chuva que caiu sobre minhas árvores nesta tarde de sábado, 19 de setembro. Desde três dias antes deste eu já recebi a mesma quantidade de água que deveria receber no mês todo.

Não estou reclamando não, mas o bom seria se esta chuvarada fosse de pouco em pouco, não assim, tudo de repente.

Mas o escolhido foi... 

Clica na foto aqui embaixo para ver e ouvir a trilha do filminho feito com a câmera amarrada no tronco de uma das árvores que me criam.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Doeu, mas já passou




Como sabem, sou totalmente suscetível aos humores e amores da atmosfera que me rodeia. Preciso de sol, chuva, vento – desde que não seja muito forte -, frio e calor. Se tudo isto aparece nos momentos mais propícios e com as intensidades ideais, a possibilidade de eu vir a ser uma fruta maravilhosa na hora de ser degustada é bem grande.

Tem muitas outras coisas que me afetam, mas a maioria delas podem ser administradas pelos que cuidam de mim. Porém, o que vem do céu, não. Quanto a isto, eles só podem olhar.

E se teve algo que olharam com apreensão foram as três pancadas de chuvas de granizo que caíram sobre minhas árvores na tarde e noite de 16 de setembro.

Felizmente, desta vez, foram pedras pequenas, de até, mais ou menos, 1,5 cm de diâmetro. Doeu muito na hora, mas agora já estou bem. As do do ano passado eram maiores e deixaram marcas nas minhas cascas. 

Foram pequenas também para, ao que parece, não estragar os meus colegas pêssegos e amorinhas. As primas laranjas Rubi sofreram mais do que eu, mas também, nada que se mostre tão grave.

Se clicar na imagem aqui abaixo vai ver um vídeo que mostra a Lu Eicke dando uma geral nas flores e frutinhos.